Otávio... "Pensou um pouco...":
"Era dele mesmo? Toda a idéia que lhe surgia, porque se familiarizava com ela em segundos, vinha com o temor de tê-la roubado.
(...)
Sim, sim, foi isso, não fugir de mim, não fugir de minha letra, como é leve em horrível, teia de aranha, não fugir de meus defeitos, meus defeitos, eu vos adoro, minhas qualidade são tão pequenas, iguais às dos outros homens, meus defeitos, meu lado negativo é belo e côncavo como um abismo. O que não sou deixaria um buraco enorme na terra. Eu não agasalho meus erros, enquanto Joana não erra, eis a diferença.
(...)
Quem escreve essa página nasceu um dia. Agora são exatamente sete e pouco da manhã. Há névoas lá fora, além da janela, da Janela Aberta, o grande símbolo. Joana diria: eu me sinto tão dentro do mundo que me parece não estar pensando, mas usando de uma nova modalidade de respirar. Adeus.
(...)
'De tal modo a imaginação é a base do homem que todo mundo que ele tem construído encontra sua justificativa na beleza da criação e não na sua utilidade, não em ser o resultado de um plano de fins adequados às necessidades. O homem levanta casas para olhar e não para nelas morar. Porque tudo segue o caminho da inspiração. O determinismo não é um determinismo de fins, mas um estreito determinismo de causas. Brincar, inventar, seguir a formiga até seu formigueiro, misturar água com cal para ver o resultado, eis o que se faz quando se é pequeno e quando se é grande. É erro considerar que chegamos a um alto grau de pragmatismo e materialismo. Na verdade o pragmatismo __ o plano orientado para um dado fim real __ seria a compreensão, a estabilidade, a felicidade, maior vitória de adaptação que o homem conseguisse. No entanto fazer as coisas 'para quê' parece-me, perante a realidade, uma perfeição impossível de exigir do homem. O início de toda sua construção é 'porquê'. A curiosidade, o devaneio, a imaginação __ eis o que formou o mundo moderno. Seguindo a inspiração, criando ingredientes, criou combinações. Sua tragédia: ter que se alimentar com elas. Confiou em que pudesse imaginar uma vida e encontra-se noutra, aparte.
Não se pode pensar impunentemente.' Joana pensava sem medo e sem castigo. Teria a loucura por fim ou o quê? Não podia adivinhar. Talvez sofrimento apenas."
Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem.
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