segunda-feira, 1 de outubro de 2012

"Alomorfia"

Esse conto não é meu e eu sequer pedi a autorização do dono dele para postá-lo, mas como ele me da muito orgulho, eu andei vendo este sendo mal utilizado por pessoas que talvez o tenham interpretado mal e sei que o dono não se importará de vê-lo aqui... quero exibir. rs.
 Esse conto foi feito há um tempo atrás, destinado único e exclusivamente para um concurso de contos na UEG. Merecidamente, um outro conto do autor, ganhou o tal concurso.
Alomorfia

Um jardim. O pequeno verme escalava uma curiosa liliácea cuja flor desabrochava e morria em poucas horas. Naquela época do ano, as manhãs eram perfumadas com um frescor úmido resultante da chuva que molhou a madrugada. Os animais adoravam se esparramar sob o sol, permitindo que seus suaves raios penetrassem em suas peles e aquecessem seus corações.  Aquele verme tinha um coração apaixonado. Da maneira mais secreta e infantil, desejava estar próximo ao objeto de seus sentimentos: uma criatura que sequer sabia da existência do pobre rastejante.
Distraído em seu trajeto, o verme se assustou quando uma sorridente figura surgiu de trás de uma folha.
-Então hoje é o grande dia? - Era seu amigo, um atrapalhado grilo.
-Tomara que seja! - respondeu o verme com um olhar vazio. Naquele dia, decidira se declarar para sua amada. Estava nervoso, a despeito da alegre canção infantil que se ouvia vindo de longe.
-Você deve tentar, meu amigo! -  o grilo pulava ao redor de seu lento companheiro - Só não deve criar muitas expectativas. Ela vive em um mundo completamente diferente.
-Esse outro mundo me atrai. A sensualidade do mistério é o que dá gosto à vida. Nossos maiores prazeres estão em transpor as fronteiras do comum e desvendar os segredos do incógnito.
-Mas não há mistério! Vermes não voam por aí espalhando pólen! Para que voar? Veja as belas centopeias que perambulam aqui em baixo...
-Nada tenho contra as criaturas terrestres, pelas quais tenho grande admiração. Todavia, não me sinto uma delas. Eu queria conquistar os céus... Queria ser um poeta, um artista, um músico... Viver a beleza das coisas.
O grilo se afastou suspirando:
-Que estranho você é! Se eu fosse uma borboleta, não daria bola para um verme maluco. Boa sorte, mesmo assim.
As palavras desanimadoras do grilo se multiplicavam, um turbilhão de pensamentos.
Ao alcançar o topo da flor, o verme se surpreendeu com o brilho da manhã. A paisagem era espantosamente sobrenatural. Não havia sol, nem nuvens, nem horizonte. O céu era uma abóbada colorida, como uma aurora boreal se estendendo ao infinito. Uma límpida cachoeira logo a frente, com uma multidão de flores espalhadas ao seu redor. Sobrevoando as flores, inúmeras borboletas. Uma daquelas belezas voadoras era a conquistadora dos sentimentos platônicos do verme.
De flor em flor, as borboletas se espalhavam pelo cenário. Alguns grupos se aproximavam da planta de onde o verme observava tudo com admiração. Sua querida estava lá, pousando numa petúnia a poucos metros dele. Curiosamente, aquela borboleta tinha uma forma humana. Na medida que era uma borboleta de longas asas azuis e antenas de pontas enroscadas, era também uma mulher de cabelos compridos, gestos delicadamente femininos e bochechas proeminentes.
O verme sentia seu coração palpitante. Algo queimava por dentro, enquanto a timidez parecia pressagiar uma humilhação. Ela se aproximava mais e mais... Tentou chamá-la, mas palavra nenhuma saía de sua boca. Entretanto, logo ficou claro que chamar era desnecessário. Ela estava parada no ar em frente ao verme, encarando-o e sorrindo. E foi ela quem quebrou o silencio:
-Algumas pessoas alcançam seus objetivos pela força. Outras, pela insistência. Outros, jamais realizarão seus sonhos. Você, verme, só poderá vencer através da paciência. Percebo que tem uma personalidade sensata. Então, peço que conserve essa virtude, e não aja precipitadamente.
-O quê... como... você...?
-Te vejo na penúltima semana de primavera.
Estupefato, o verme viu a borboleta se afastando, mergulhando num voo rasante para a cachoeira. “O que ela quis dizer? O que sabe sobre mim? Aquele grilo maldito deu com a língua entre os dentes, e a borboleta me ridicularizou! Nada quer comigo!”
O verme virou-se para descer a flor. Estava atormentado com as sementes de dente-de-leão que o vento soprava em seus olhos e com a alegre música sinfônica que soava ali perto. Queria chegar logo no chão, na terra, no seu verdadeiro lugar, de onde nunca devia ter saído. Não vale a pena se aventurar por um mundo mágico que nunca hospedará a solidez da realidade.
No caminho, restos do que fora a teia de uma aranha grudaram em suas patas. Admiráveis os aracnídeos: produziam suas próprias casas, e lá viviam sós, apenas esperando que um inseto voador caísse em suas armadilhas. Desejou que pudesse também construir seu lar.
Se aninhou no vértice do tronco com uma rama da planta e reparou que, de um estranho orifício abaixo de sua boca, podia expelir o que se parecia com uma teia. Com movimentos padronizados, começou a tecer um lar. Trabalhou durante um longo tempo, no ritmo de uma canção que contava a história de um garoto revoltado que se isolou do mundo, construindo uma parede em torno de si.
Com o trabalho pronto, sentiu-se confortável, aliviado. Tinha feito um quarto que acomodava perfeitamente o seu corpo. Tudo desaparecera, até mesmo a música. Provavelmente adormeceu, conquistando o merecido descanso seguinte ao árduo trabalho. O prazer que o verme sentia era indescritível. Aquele pequeno abrigo parecia inundado de esperança. Um agradável acontecimento iminente.
Uma tênue luz.
Abre os olhos.
Olha para o teto.
Desperta.
A frágil luz das seis da manhã pinta de cinza as paredes e o teto do apartamento. O cheiro de terra molhada e o som do respingar de chuva no vidro da janela.
O verme olha em volta, reavendo a consciência. Não é um verme. Não é uma lagarta. Também não é uma borboleta. É uma mulher. Não há um casulo de seda ao seu redor, há somente concreto e manchas de mofo. O homem que dorme ao seu lado não é a borboleta de seus sonhos. As canções infantis foram abafadas pelo rugido de motores na avenida.
Uma forte nostalgia, mesclada com o desgosto de uma vida desperdiçada é sua única sensação, contrastando-se com a ternura inefável daquele sonho florido. O sonho foi uma manifestação de seu passado esquecido, as ilusões daquela época de desejos, prazeres, música, felicidade... Muito tempo se passara desde sua juventude, e até então, não havia percebido que as aspirações daquele tempo nunca foram – e jamais seriam – realizadas. Desespero.
A mulher levanta-se e vai até a janela, verificar a sórdida cidade. É segunda-feira, dentro de poucos minutos deverá estar em seu escritório, cercada de números e relatórios. Mas ela não quer trabalhar. Ela quer apenas voar para uma colina distante e jamais voltar a pensar em finanças.
Uma voz ecoa em sua mente. É a canção do garoto que construiu a parede. Como a lagarta, ela também poderia tentar construir a sua.
Sobre o criado-mudo, uma revista entomológica pousa em cima de um copo com água. Ela toma um gole, atirando a revista para o chão. Dirige-se ao banheiro. Tranca a porta. Olha-se no espelho, descobrindo os indecorosos sinais da velhice, mas sem encontrar a estrutura onírica que serviu para tecer as paredes de seda. Passa a mão pelos curtos cabelos, que se soltam em suas mãos. Sinal de que a quimioterapia está funcionando. Apanha o pente de seu marido no lavatório de mármore. Sua ponta é suficientemente afiada, e o cabo suficientemente longo.
Ergue a cabeça numa postura triunfante.
Com um golpe rápido e definitivo, apunhala-se com o cabo do pente, perfurando a fina pele da garganta, logo abaixo do queixo, atravessando a jugular.
Enquanto agoniza silenciosamente no chão frio, escuta o longínquo ruído do telefone...



Rômulo Alexander.

Um comentário:

  1. Ps.: O dono do conto acabou por vê-lo aqui e, de fato, não se importou. Houveram também outros lugares onde foi postado e ele não sabia do feito, após vê-lo também não se importou.

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